Coleção Arte Sesc em Minas Gerais: memória, território e patrimônio cultural
No contexto da exposição Picasso: a Construção de um Gênio, o Sesc apresenta ao público um recorte da Coleção Arte Sesc em Minas, reafirmando seu compromisso com a preservação, a pesquisa e a difusão do patrimônio artístico e cultural brasileiro. A presença dessas obras na celebração de seus 80 anos convida à reflexão sobre as múltiplas narrativas que constituem nossa identidade coletiva e sobre os diferentes modos pelos quais a arte registra experiências, saberes e formas de viver.
Esta seleção aproxima a trajetória da instituição das histórias preservadas em seu acervo. Formada ao longo de décadas de atuação em terras mineiras, a Coleção Arte Sesc em Minas reúne testemunhos de encontros entre artistas, comunidades, saberes tradicionais e distintas maneiras de imaginar e representar o Brasil.
A cerâmica conduz essa narrativa. Barro, água, gesto e fogo atravessam gerações e conectam Minas Gerais a uma ampla cartografia cultural latino-americana. Das matrizes indígenas às expressões populares contemporâneas, modelar a terra constitui uma forma de registrar corpos, territórios, crenças, trabalhos e afetos. As obras aqui reunidas foram realizadas pelas mãos de mulheres ceramistas do Vale do Jequitinhonha e demonstram a potência dessa linguagem artística como espaço de transmissão de conhecimentos, preservação de tradições e construção de identidades individuais e coletivas.
A apresentação desse conjunto no espaço comemorativo se destina a estabelecer aproximações com a produção de Pablo Picasso e evidenciar referências associadas à sua produção também como ceramista. Sua presença reafirma a relevância de narrativas que, por muito tempo, ocuparam posições secundárias nos discursos hegemônicos da história da arte, embora sejam fundamentais para compreender a diversidade cultural que constitui o Brasil.
Reunidas nesta exposição, as obras das artistas mineiras Ana do Baú (Ana Fernandes de Souza) e sua irmã Natália do Baú, de Campo Alegre; Geralda Batista, de Caraí; Maria Madalena Mendes Braga, de Santana do Araçuaí; e Zezinha e Irene, de Coqueiro Campo, evidenciam a Coleção Arte Sesc Minas Gerais como parte da memória cultural do estado.
Ao aproximar o público dessas produções, a instituição visa contribuir para o reconhecimento da pluralidade de vozes que constituem a sociedade brasileira, favorecendo uma compreensão mais ampla e sensível das histórias e experiências compartilhadas por diferentes comunidades e gerações.
Etnografias de um fazer artístico popular
As imagens reunidas nesta mostra são fruto de um trabalho prospectivo do Sesc na área da cultura popular, por meio do projeto Cenarte – Central do Artesanato do Sesc em Minas. A iniciativa foi inaugurada em 1978, tendo como objetivo estabelecer um elo entre a produção artesanal do interior do estado e o mercado urbano, valorizando o trabalho desenvolvido pelos artesãos, retratando características próprias de sua região.
A Cenarte chegou a contar com uma loja em Belo Horizonte, localizada no Edifício Sede do Sesc, para exposição e venda de peças artísticas e artesanais de diferentes regiões de Minas Gerais. Essa, porém, era a ponta final de um extenso mapeamento realizado pela equipe do projeto, que envolvia não apenas identificar artistas e seus territórios, mas ir até os principais municípios produtores de artesanatos locais para registrar seu processo criativo, seus modos de fazer, seu ambiente e condições de vida e, finalmente, realizar a seleção do que viria a compor o acervo da loja na capital mineira.
O acervo da loja foi objeto de novos processos de preservação e curadoria e, embora a Cenarte tenha encerrado suas atividades na década de 2010, essas obras formam, atualmente, o núcleo principal da atual Coleção Arte Sesc em Minas Gerais. Assim, tais fotografias possuem um profundo valor documental e etnográfico de práticas artísticas que, ao longo do tempo, foram e ainda são parte da história do Sesc e de Minas Gerais.







